19 de dezembro de 2009

Uma canção diferente

Era apenas mais um dia, mais uma quinta-feira... Tudo estava exatamente no lugar, mas havia algo que estava diferente, algo estava diferente demais pra ser verdade, e não estava na decoração da casa, ou na noticia do jornal da manhã que o pessoal assistia na sala... Algo tinha acontecido com o Sol, ele estava-pela primeira vez depois de tantos dias nublados- me sorrindo, e como o seu sorriso brilhava, e tudo parecia estar diferente naquele dia, embora a rotina fosse a mesma, embora os caminhos fossem os mesmos, as estradas pareciam estarem mudadas, tudo parecia estar mais alegres, e tudo continuava no mesmo lugar de sempre... A tarde estava mais colorida do que nunca e aquela sensação de alegria parecia querer me inundar e eu deixei, e se tudo aquilo fosse irreal, eu continuaria a querer me inundar porque tudo estava bom demais; e todos os meus planos pra aquele dia me pareciam tão insignificante comparados àquela sensação, e eu desejei que aquilo nunca acabasse. E o dia passou correndo, o Sol já estava se pondo, e ele ainda me sorria alegre, e aquela melodia feliz continuava tocando incessantemente no meus ouvidos, e todos pareciam estar normalmente entediadas, como em todos os outros dias, e parece que aquela graça estava acontecendo apenas comigo, e eu estava altamente sensibilizada, e toda aquela sinfonia não tocava apenas meus ouvidos, incendiavam meu coração me fazia arder o peito, e aquela felicidade enfeitava a minha alma, e nem foi preciso flores... Então eu percebi que a noite já começava a cair e todos meus colegas de classe já estavam cansados, esperando que o sinal da escola tocasse - pra que todos pudessem ir para suas casa, pra sentar na frente da tela de um computador comendo uma comida que já estava fria, e passarem o tempo que sobrar entre o fim da madrugada e o novo dia tentando dormir com o coração cheio de vazio, exatamente como eu faria num dia comum – mas eu continuava deslumbrada com tudo aquilo e nada podia me tirar daquela sintonia e nada que aquelas pessoas que são tão contra a minha felicidade fizessem iria me tirar daquela melodia... E quando o esperado sinal toca, as pessoas saem apressadas pelos corredores, como eu fiz ontem, e eu levanto lentamente da minha cadeira carregando meu pouco material, acompanhando cada detalhe nas paredes daqueles corredores, guardando-os como se fosse a última vez que os visse; e então chego a rampa que dá acesso ao pátio, ao portão, à rua; e a minha ansiedade, em saber até onde aquela felicidade iria, me levava quase cambaleando ao passo seguinte e de repente eu levanto meu olhar, que agora parecia tão feliz com todas aquelas flores ao redor, e vejo um vulto que parecia-me muito familiar e meu rosto tornou-se interrogativo até que eu me aproximei e vi que era você que estava de pé em frente ao portão exatamente como em todas as outras quintas-feiras, e aquele dia tinha corrido tão diferente dos outros que me fez esquecer que hoje eu teria que estar arrumada pra que você não me encontrasse tão descabelada, e eu havia me arrumado mais que as outras vezes e meu sorriso parecia estar mais sincero que das outras vezes, e eu estava satisfeita assim... E você me sorriu vazio como as outras vezes e eu te respondi com o mesmo sorriso vazio das outras vezes, e eu demonstrei o que eu sentia e quis arrancar palavras de ti, como nas outras vezes, mas você não queria palavras, eu sei, porque você nunca quis; a moça da barraca veio, fizemos um pedido, ela se retirou, você me abraçou e sua mão me tocou de leve como antes, e eu não demonstrei nenhuma reação, e a tua mão não pôde ir além, mesmo sem ninguém pra testemunhar por perto existia alguma coisa errada comigo, e você percebeu que algo estava mudado e o teu toque não pôde mexer aqui dentro e você sabe disso... Você quis me abraçar depois, mas eu resistir, mesmo sabendo que amanhã iria querer aquele abraço de novo, mas o teu abraço, o teu cheiro, a tua pele, o teu toque, parecera – pela primeira vez - estar tão vazios, que as minhas expectativas de que você era o que eu queria pra toda a minha vida poderiam ser frustradas e eu fiquei longe pelo menos aqueles últimos minutos, a moça voltou, pegamos o que pedimos nos despedimos e nos afastamos, e você me devolveu aquele sorriso vazio e ele parecia estar esnobe de novo... E eu fui pra casa com a cabeça girando como nos outros dias, mas o ar continuava feliz demais, a noite já estava a pique e a Lua encandeava todos os meus pensamentos, e eu sorria como durante aquele dia inteiro, e a madrugada fria não conseguia controlar as emoções abafadas dentro daquele quarto sem iluminação, e o meu sorriso parecia não estar cansado ainda, mesmo com as horas já se avançando. E aquele dia foi embora logo que meus olhos se fecharam e minha mente adormecera...
Mas nem o seu esnobismo pôde tirar meu sorriso aquele dia... Não naquele dia!
Taynná Chaves.

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