27 de junho de 2010

Catarina III

Catarina, enlouquecida, piscava os olhos vagarosamente, talvez pra disfarçar o peso que sentia. Estava só mais uma vez, não sabia o que fazer e tinha uma saudade e uma culpa enorme nas costas. Não queria saber de mais nada, mais ninguém. Sabia o que não queria. Sabia o que queria.

Forçava a mente, fechava os olhos, se mexia feito louca, implorava pra mente se esforça! Se esforça! Mas não adiantava. Parava e meditava: se auto-julgava, se auto-batia, se auto-reclamava. Não conseguia nada.

Era extremamente odioso pra ela esquecer. Se deixar esquecer.

Não lembrava. Não lembrava o rosto dele. Não lembrava.

Foi pra rua, gritou com o cachorro, o porteiro, o sindico do prédio, o motorista que buzinou no pé do seu ouvido, as crianças do campinho... Gritou consigo mesma. Olhou pro céu, fragmentos de uma gota que pingou se espalharam por seu rosto e um sorriso foi espontaneamente aberto. Pegou o guarda chuva que estava na bolsa. A chuva se estendeu e o sorriso ficou muito mais largo, seu coração quase explodindo.

Olhou o relógio, faltavam cinco minutos, olhou pro céu de novo e viu. Encontrou o que queria. Viu o rosto dele. Jogou o guarda chuva. Pôs as mãos no bolso. Olhou pro céu e o viu. Sorrindo, lindo, um doce.

Catarina sorriu, linda, um anjo. E uma saudade cinza se espalhou por todo seu corpo. Uma dor indefinível atingiu aquele sorriso.

Ela suspirou, contrariou tudo que era previsível. Olhou pro céu e sorriu. Estava feliz.

Havia lembrado o rosto dele. O amava. Era o suficiente.

Taynná Chaves

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E fui eu, te guardei

Onde ninguém vai tirar

No fundo dos meus olhos

Lá dentro da memória te levei

Amor, você me tentou...

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