31 de agosto de 2010

Heitor II

Hey, my dear

Da primeira vez que você partiu, partiu também meu coração. Levou consigo a lua, as estrelas, as flores. Você foi pro Egito, pra França, Arábia Saudita, Espanha. Estava tão longe, tão avulso que acostumei com essa falta de. Buscava cores, razões, motivos em coisas pequenas, mas as emoções: nada. Conheci gente nova, ri de novo, fiquei de bem com a vida, mesmo de vento em poupa, situação estável, estava aqui, só por estar, oca-fofa-balofa. Você estava aos poucos esfriando, eu esquecendo o mundo mudando o tempo passando.

Um dia estava tão certa de que não voltaria mais que parei de checar meus e-mails, olhar minha caixa de correio, e de repente você chega, entra sem bater na porta e diz que chegou-chegando! Meu coração se aquece, dispara, enlouquece, pega fogo. Me abraçou forte, mostrando presença, bem você, como se dissesse, olha: isso é pra te lembrar que eu tô aqui, bem aqui ó, e ai dentro de você, bem ai.

E, bom, quando você chegou e falou comigo, você mexeu a estrutura, curto-circuito interno, problema nas fiações. Levei aquele encontro a sério demais, e você conseguiu de novo, talvez diga. Acreditei em cada faísca que o contato com sua pele tornou chama, fogo, brasa viva. Olhei teus olhos de palavras simples, promessas fáceis, vi tanto amor, tanta luz que resolvi acreditar nos centímetros que faltavam naquele espacinho apertado entre seus braços e eu. Em cada segundo de nervosismo meu, em cada palavra sem nexo e em cada sorriso-bobo-e-descontrolado-de-quem-tá-amando que eu não consegui conter.

E eu sentia que era sério, convidei os amigos, falei pra eles do jeito desajeitado com que você me falava das maravilhas que conheceu nas viagens, e eles riam ah, como eles riem de você todo bobo e eu toda sem jeito. Preparei tudo, enfeitei a casa, arrumei flores. Mas você sumiu sabe, sem carta, bilhete, telefonema. Você sim-ples-men-te desaparece. E deixa um cartão com a foto de mais um país, um ponto turístico, Londres, Paris, NY, i don’t know, e deixa no verso com sua letra fan-tás-ti-ca, você ainda me ama, my dear, vou pro mar e quando voltar cê vai tá aqui baby, esperando me ver chegar.

E fiquei tão mal por um tempinho, três segundos? Cê tá é louco Heitor, quer fugir, foge, tem medo; não sabe os passos, não entra na dança; tá com medo de se molhar, não vem pra chuva. Mas não se esquiva, não sem argumento cara, tão te chamando de covarde por aqui. Mas eu não, eu entendo você, entendo&espero, e sei que isso é típico seu, sua cara. Só tem uma coisa presa, um nó na garganta, pergunta incucada, cê mal chegou já vai pro mar? Aqui tem cama, café, teto e afeto. Quer mais o quê, cara?

Com amor,

Marjorie.

Taynná Chaves

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