27 de junho de 2010

Catarina II

Catarina agora estava sozinha. Cabelos esvoaçando, pulmões gritando, corria. Corria ao encontro dele, mesmo no escuro. Corria sem pensar e, talvez por isso, sem medo. Corria ao encontro dele no fim corredor: escuro alagado estreito longo. Sem medo. Dissuadia sua mente das canções e dos pensamentos que vinham à frente. A chuva estava cada vez mais forte e o corredor mais escuro, não tinha lua, nem estrelas, só nuvens: negras.

Quanto mais corria mais longo ficava o caminho, seu reflexo na água começava a desaparecer e o sono começava a afetar sua mente e sua lucidez, e seus olhos se fechando cada vez mais tentavam encontrar uma brecha de luz, uma seta que indicasse outro caminho. Mas era um corredor. Era um labirinto. Um beco. Uma ruela. Só que infinita. Sem volta. Sem curva. Sem saída. Era só o caminho à frente. E nunca mudava.

Por um segundo pensou ver os olhos dele, os braços abertos o coração se abrindo. E sentiu alimentar um sorriso em seus lábios, uma luz que iluminou todo o corredor, abrindo uma passagem, uma saída. O abraçou, o apertou, o segurou com-todas-as-suas-forças, prometeu que não mais o soltaria. Uma dor muito forte a invadiu e ele se foi no escuro.

Catarina tinha caído, estava sonhando, foram dois segundos apenas. Ele não se foi, apenas nunca viera. Apenas.

Mas ela não sabia. Minto. Sabia, mas se enganava. Doía menos se enganar. E ela continuava correndo, sentindo o sorriso se alimentando daqueles olhos e daqueles braços e daquele sorriso, e de um reflexo, um sonho, um delírio: seus lábios, os dela e os dele, unindo-se, sentindo-se, amaciando-se; suas mãos juntas: tateando, apertando, sentindo um ao outro; e seus corpos: quentes, fervendo, desejosos juravam e falavam e consentiam e suspiravam e se apertavam como não-me-abandone-jamais.

Mas quando cansou, soube que iria amanhecer. E que pararia de correr em busca dele por um corredor escuro e infinito debaixo de chuva. Ela sabia. Por que estava amanhecendo e o sol estava nascendo: quente sorrindo lindo. Lindo. Lindo. E parou por meio segundo, pensou como quem jurava: agora que está claro, vou poder chegar mais rápido. Já tô perto, meu bem. Espere por mim...

E agora corria por um corredor claro e infinito debaixo do sol e da neblina da manhã.

E Catarina continuou correndo. Correndo. Correndo.

Ao encontro dele.

Taynná Chaves

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Mas sabes principalmente, com uma certa misericórdia doce por ti, por todos, que tudo passará um dia, quem sabe tão de repente quanto veio, ou lentamente, não importa. - Caio Fernando

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