Enquanto o tempo custa a passar, as mãos contra o rosto, o mundo acontecendo, as pessoas passando, e uma imensa camada de nostalgia o separando de todo o resto. Estava desligado, completamente alheio ao seu redor, nada o impedia, nada o faria parar, pensava e as coisas se refletiam, meio que automaticamente, a sua frente. Estava sozinho e sentia uma saudade enorme de algo que – vendo-o de longe, como eu via – não era possível identificar. Ainda assim, era lindo e esbanjava isso nos sorrisos tortos que dava quando a campanhia tocava avisando que era a vez do próximo paciente. Sua ficha era a
Sentado da mesma forma durante uma hora e meia, ele passava por períodos de transição entre ódio e amor, dor e alegria. No meio desses períodos sempre suspirava – lento, nostálgico, se arrastando entre o momento imaginado e o presente.
Em um momento, porém, ele estava perplexo, no rosto algo entre culpa e dor se espalhava, algumas lágrimas se ajuntavam nos olhos, o sorriso se desfazia cada vez mais, a beleza havia se perdido, nada restava do rosto feliz que ele tinha.
Uns minutos se passaram, a campanhia tocou mais uma vez, ele continuou imóvel, rasguei um pedaço de papel da minha ficha de consulta, puxei uma caneta da bolsa, apoiei o papel na perna e escrevi: Ela vai voltar?
Entreguei o bilhete. E ele, o rapaz, baixou a cabeça abrindo o papel. Pegou uma caneta do bolso da camisa, escreveu e entregou o papel, no canto esquerdo uma letra perfeita.
- Como você sabe?
- Aconteceu comigo também, acontece com todo mundo. Ele saiu resmungando algo como: “eu quero viver minha vida”! Eu sei essas coisas de longe.
- Que idiota.
- Pois é. E ela? O que disse? “Você é um cara legal, interessante, mas... Não nascemos um pro outro, e blá blá blá”?
- Como você sabe?
- É sempre assim.
- Pois é.
- Quer uma bala, dizem que doces são ótimos pra isso.
Ele sorriu e apontou para a cadeira vazia ao seu lado e me chamou pra sentar, levantei e sentei do lado dele, do rapaz, e conversamos durante tanto tempo que esqueci a minha vez na fila, estávamos sorrindo quando a campainha tocou: Ficha 188, compareça ao consultório 4! Nos olhamos, sorrimos, tocamos as mãos e continuamos lá sentados, sem falar nada, sem sentir nada. Depois seguimos nossas vidas, com nossas mágoas e culpas, cada um com sua dor. Ele foi numa direção e eu em outra como se nunca tivéssemos trocado bilhetes ou ao menos nos olhado.
Taynná Chaves