19 de julho de 2010

História Confusa

Enquanto o tempo custa a passar, as mãos contra o rosto, o mundo acontecendo, as pessoas passando, e uma imensa camada de nostalgia o separando de todo o resto. Estava desligado, completamente alheio ao seu redor, nada o impedia, nada o faria parar, pensava e as coisas se refletiam, meio que automaticamente, a sua frente. Estava sozinho e sentia uma saudade enorme de algo que – vendo-o de longe, como eu via – não era possível identificar. Ainda assim, era lindo e esbanjava isso nos sorrisos tortos que dava quando a campanhia tocava avisando que era a vez do próximo paciente. Sua ficha era a 142, a minha 130; a campainha acabara de avisar: Ficha 56, compareça ao consultório 5! Apenas dois consultórios estavam funcionando.

Sentado da mesma forma durante uma hora e meia, ele passava por períodos de transição entre ódio e amor, dor e alegria. No meio desses períodos sempre suspirava – lento, nostálgico, se arrastando entre o momento imaginado e o presente.

Em um momento, porém, ele estava perplexo, no rosto algo entre culpa e dor se espalhava, algumas lágrimas se ajuntavam nos olhos, o sorriso se desfazia cada vez mais, a beleza havia se perdido, nada restava do rosto feliz que ele tinha.

Uns minutos se passaram, a campanhia tocou mais uma vez, ele continuou imóvel, rasguei um pedaço de papel da minha ficha de consulta, puxei uma caneta da bolsa, apoiei o papel na perna e escrevi: Ela vai voltar?

Entreguei o bilhete. E ele, o rapaz, baixou a cabeça abrindo o papel. Pegou uma caneta do bolso da camisa, escreveu e entregou o papel, no canto esquerdo uma letra perfeita.

- Como você sabe?

- Aconteceu comigo também, acontece com todo mundo. Ele saiu resmungando algo como: “eu quero viver minha vida”! Eu sei essas coisas de longe.

- Que idiota.

- Pois é. E ela? O que disse? “Você é um cara legal, interessante, mas... Não nascemos um pro outro, e blá blá blá”?

- Como você sabe?

- É sempre assim.

- Pois é.

- Quer uma bala, dizem que doces são ótimos pra isso.

Ele sorriu e apontou para a cadeira vazia ao seu lado e me chamou pra sentar, levantei e sentei do lado dele, do rapaz, e conversamos durante tanto tempo que esqueci a minha vez na fila, estávamos sorrindo quando a campainha tocou: Ficha 188, compareça ao consultório 4! Nos olhamos, sorrimos, tocamos as mãos e continuamos lá sentados, sem falar nada, sem sentir nada. Depois seguimos nossas vidas, com nossas mágoas e culpas, cada um com sua dor. Ele foi numa direção e eu em outra como se nunca tivéssemos trocado bilhetes ou ao menos nos olhado.

Taynná Chaves

Sistemático

Incrível como agente só percebe as coisas depois de feitas, os erros depois de cometidos, as palavras depois de ditas. É preciso tempo pra arejar a cabeça, esfriar as ideias, desarmar a curiosidade, acalmar a ansiedade; ficar um tempo na janela, no escuro, evitando a rua, as pessoas. Evitando a nós mesmos. É normal. É o sistema.

Cansamos de nós, essa é a verdade, e quando os sussurros da mente nos gritam em momentos turbulentos e não conseguimos escutar nem os pensamentos, a solução é ligar o rádio, a TV, o liquidificador e falar pelos cotovelos pra que o silêncio não nos entregue. Todo mundo sabe que a música não vai acalmar, é ilusão. Todo pensamento engana, toda emoção confunde. E as verdades se perdem no modo “natural” de como as coisas acontecem.

E se o sistema é falho é por que também somos, e se erramos é bom sinal: quer dizer que somos humanos! No fim das contas agente existiu mesmo.

E eu jurava que minha cabeça era fértil suficiente pra inventar você!

Taynná Chaves

#

Eu abri meu coração como se fosse um motor

E na hora de voltar sobravam peças pelo chão

Mesmo assim eu fui à luta

Eu quis pagar pra ver aonde leva essa loucura

Qual é a tática do sistema

Onde estavam as armas químicas

O que diziam os poemas

- Engenheiros do Hawaii

Teatro de Marionetes

Para Williany Barros.

Não é ironia, é muito bom te ver, estou surpresa, mas nenhum pouco assustada, o que houve com seu encanto e seu efeito sobre mim? Talvez eles não funcionem mais, ainda estou inteira ó: pernas presas ao chão, pulsação perfeitamente normal. Meus olhos distantes de sempre, agora fixos em você, mas não acontece nada, eu não sinto nada.

Não se engane, por favor, não me engano, não quero dizer nada com isso, só deixar claro que hoje não fez a menor diferença, as coisas estão no mesmo lugar, as pedras empilhadas, as emoções trancafiadas, as lembranças longes, sem sinal ou sombra de dor.

Não é ironia, é muito bom ouvir tua voz, o teu timbre soando nos ouvidos, essa imensa falta de emoção que eu sinto, a sua presença provocava tanta coisa em mim, você sabe, não é? O quanto me afetava? Acho que aquele encanto todo se acabou, lembra dele, não é? Acho que ele cansou, acordou e quebrou. É. Assim: D-O N-A-D-A.

Se ainda sou eu? Ora, que pergunta é essa? Mas é claro que sou eu. Uns dias não me fariam esquecer tudo, é claro que não. Ainda sou eu, não mudei nada, nadinha. Quem mudou foi você! Cê tá acabado, cara, sem poderes nem efeitos sobre mim, não restou nenhum fio preso, estou solta, livre, como você poderia continuar sem sua marionete preferida? Era óbvio que você ia falir!

Não desista ainda, por favor, seja forte, não desisto. Você fazia isso tão bem, como perdeu seu dom tão fácil assim? A culpa não é minha, o que está querendo dizer? O erro foi seu, você quis o lucro e o bônus pra você. Fui embora por mim, você tinha muitas outras marionetes e fantoches, podia se virar sem mim, e se virou, faz tanto tempo que fui embora e você só notou agora?

Não é ironia, você ficou pior sem mim, estou surpresa, mas não tenho nenhum pingo de dó.

Taynná Chaves

Eu não vou, mas o tempo vem.

Faz uns dias que não chove, faz um tempo que as coisas não mudam. Suspeito que meu relógio esteja quebrado. Faz uns dias que as músicas não saem da minha mente, faz uns dias que eu não entendo o que está acontecendo. E quando eu começo a entender entra uma música que me faz querer voltar e querer ter alguma coisa que não diz.

Eu tenho medo de que o tempo que tenho seja curto demais pra ter as coisas de volta. Eu sei que se voltasse no tempo não mudaria as coisas, aprendi demais pra fingir que não valeu a pena. Eu quero ficar bem independente das coisas. O tempo vai passar e tendo ou não o quero ter a vida continua, que azar, ela continua sempre. E enquanto eu sigo, eu canto e vejo que ainda tem muito caminho à frente, tem ainda muitos degraus pra que eu pare nesse.

Taynná Chaves.

#

Mas - sei, sabes, sabemos as uvas talvez custem demais a amadurecer. E quase não temos tempo.

Caio Fernando Abreu.