Ao som de Quem Além de Você- Leoni
Por que nada é como se quer, mas é assim que tem que ser. Seu sorriso na memória incandesceu e confundiu todas as leis e métodos de segurança e fuga, e lembro - a última fuga - como lembro todas as outras. Reconstituo o calendário e me deparo com uma fuga constante, sina, rotina. Como se a cada sorriso eu fugisse, como se cada despedida e cada gesto e cada palavra dura e cada olhar fossem também fugas disfarçadas. E, depois, de já estar cansada de tantas fugas: fugi.
‘Joguei sobre você tantos medos, tanta coisa travada, tanto medo de rejeição, tanta dor’. E sei, sabíamos, que nada era culpa sua. ‘Difícil explicar. Muitas coisas duras por dentro. Farpas. Uma pressa, uma urgência’. E não era culpa minha, do destino talvez, das dores de antes, de depois. Agora, sei, não há culpa, nunca houve. Eram esquemas, planejamentos, rotas, escapes, medos ‘e uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer’. Tudo era simples e claro e belo, então me anoitecia. E o medo era todo pré, e as dores eram todas pré. Pré tudo. E antes que qualquer coisa bonita ameaçasse crescer por dentro ou por fora, eu negava e me escondia porque era o certo, ‘para que não me firam, minto. E tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também’. Não sei se te feri, era tudo pré, lembra? ‘Não sei se a gente pode continuar amigo’. Talvez tudo tenha se apressado tanto que nem amigos chegamos a ser. ‘Não sei se em algum momento cheguei a ver você completamente como Outra Pessoa, ou, o tempo todo, como Uma Possibilidade de Resolver Minha Carência’. Sei, apenas, que tudo correu de jeito tão incontrolável e inacabado que o fim evidente se atou com o começo inconsequente e agora, mais uma vez, é tudo pré. E depois do pré vem o pós e depois do pós não tem pra onde correr, é pré de novo: Pre-ci-são. Minha, sua, nossa.
Taynná Chaves
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