29 de maio de 2010

Um cara II

- Como está o vento por ai?

- Hesitante, sem definir pra que lado quer seguir e a quem ajudar. Como estão os ventos daí?

- Eles estão calmos e silenciosos, por vezes, mudos. O silêncio que mata...

- Pior seria rompê-lo com palavras insensatas que escapam de nós.

-De fato, mas não se descobre ou conserta um erro sem cometê-lo.

- O calar e o consentir resolvem mais que corações queimando no fogo inconsequente de uma paixão.

-Você parece ter uma armadura. Nada sabe sobre o amor!

- Eu prefiro os pés fincados em terra firme e continuar sorrindo: por não saber nada!

- E desistir de lutar?

- Talvez todas as lutas nas quais estive colocaram em jogo os meus sorrisos e tiveram fins violentos...

- Fernando Pessoa disse que 'nada torna, nada se repete. Porque tudo é real'!

- O amor não.

- Por que você não deixa esses livros, essas fábulas e essas histórias de lado e vem pro sol?

- E perder minha segurança?

- Você precisa deixar que suas asas se desenvolvam!

- Você se convence de tudo por muito pouco...

- Você nunca se convence de nada? E este coração acomodado aí no peito? Use-o, oras bolas.

- Eu gosto da realidade!

- Realidade? Então venha ver o sol da minha janela!



-


- Isso não é real!

- Se não fosse seus olhos não estariam abertos.

- Eu os fecho e ainda sinto a mesma sensação!

- Sabe do que esse céu alaranjado me faz certo?

- Que a vida é curta demais para estarmos falando diante de tudo isso.

- Não. Você é linda! O céu está perfeito, o vento está assanhando as árvores, os pássaros estão cantando belas melodias, o frio está abraçando o fim do dia e a noite vai ser de luar... Contudo, você é linda!

- Está ventando muito aqui. Eu preciso de um lugar abafado!

- Você tem tanta guarda e tanto chão e tanta segurança. Então por que você foge tão rápido e se perde, e deixa que eu perceba que suas mãos tremem quando falo de amor? Quando eu sei que você esconde o que quer dizer, engana a si mesma e tenta disfarçar. Por quê?

- É por que é te amo... É só por isso!


- Taynná Chaves

24 de maio de 2010

“Meto-me pra dentro e fecho a porta.”

Tudo está muito plástico por aqui e quando minhas esperanças se acabam e a noite chega ao fim e nada tem acontecido, nem a lua aparece nem deixa vir o sol. E meu sono nem chega nem me faz menos cansada. E eu nem sorrio nem choro, e nem sei nem desconheço nada aqui. E penso por um instante que é só isso mesmo: ‘a vida se repete na estação’. E por um segundo me pergunto se vale a pena ter chegado até aqui e estar sentindo nada, só o vazio.

E então encontro forças dentro de mim, no lugar mais intimo e confiável que me restrinjo tanto em admitir que ainda tenho; dentro das minhas emoções mais antigas e empoeiradas; nas minhas palavras mofadas e cheias de sentimentalismo; nas músicas que mais me definem e me resumem e então lembro o quanto me satisfazia ouvi-las tocar em último volume quando eu queria ter o silêncio em meus pensamentos, quando eu queria pensar em nada...

E nos intervalos das músicas felizes que tenho escutado percebo o quanto as coisas mudaram e sei que querer esquecer as coisas que passaram é inevitável porque uma voz me sussurra: você é péssima em esquecer passado, lembra? E, puffs, eu sei que é verdade! E não me envergonho nem me repreendo por isso, de fato acho impossível esquecer tudo, seja bom ou ruim, ‘meu passado não ficou no passado’, o que passou ainda define o que se é hoje porque se nada do que aconteceu houvesse acontecido eu muito provavelmente eu não teria opinião formada em diversos aspectos entre felicidade e dor, e muito provavelmente eu não chegaria a conclusão de que Deus é fiel ainda que eu não mereça; de que família é porto seguro; que o pra sempre, sempre acaba; que os amigos que são realmente pra sempre nunca dizem que são; que os amores e as dores fazem parte, que nos aumentam, nos crescem, mas ‘são tudo pequenas coisas e tudo deve passar’, e que –oh!- graças a Deus passam. Aprendi que ouvir ‘Because of you’ de madrugada tomando café e comendo chocolate faz um bem danado pra pele e pro coração/pensa; e o mais importante de tudo que aprendi foi saber que a vida sou eu quem faço, o mundo é como eu quero ver e se ele fica ruim ás vezes a é culpa minha, por deixar as lentes embaçarem...

E que aqui da minha janela é tudo mais bonito, muito mais bonito, e toda noite é de luar, e toda carta é de amor, e toda música é pra dançar, e todas as lágrimas são de felicidade, e todo céu é azul, e todo amor – como deveria ser em todos os lugares - é verdadeiro, e todas as risadas se acumulam se propagam ecoam cantam dançam e são felizes junto com a canção, e estão todos lá, todos de quem eu mais preciso pra sorrir e ser feliz de verdade:

Então me abraça forte

Me diz se já estamos distantes de tudo

Temos nosso próprio tempo

Temos nosso próprio tempo

Temos nosso próprio tempo...

Mas, se você quer mesmo saber... Não. Não me sinto nem um pingo hipócrita por isso. Como disse a Bo: Afinal, eu não sei mais inventar amor, mas ganhei a chance de gritar pro mundo que o meu coração está batendo e eu estou muito bem aqui.

Eu sei o que existe lá fora, eu sei da violência, da fome, da morte, da dor, do desemprego, do mal, das músicas ruins, das mentiras, dos fracassos... E depois de tanto tempo me deixando influenciar por isso, eu me sinto imune e mais nada me corrompe, me corrói ou me atinge.

E como disse o Fernando: a realidade não precisa de mim. Eu fecho os olhos e mais nada interfere ou me impede de sonhar!

# Desculpe estranho, eu voltei mais puro que céu! :*

-Taynná Chaves

Construam seus muros, ponto.

Cada dia traz um acorde diferente e um verso novo vai completando a canção, cada lembrança preenche um desejo; um dia de cada vez, um passo por dia, um tijolo após o outro, formando as barreiras de novo. Em vão ou não é uma rotina, um círculo vicioso existente entre o espaço das vontades do coração e a última gota de sanidade que se consegue guardar.

E por mais que se construa árdua e dolorosamente as barreiras, sempre haverá alguém que irá quebrá-la e nem sempre se pode impedir que invadam os territórios, desfaçam as regras, acostumem os corações com uma presença que é passageira; e quando tudo se ajusta a nova presença os muros são automaticamente demolidos porque já não existem motivos para estarem erguidos, o perigo já o havia ultrapassado, e por estar tão entretido nem se vê quando eles caem, simplesmente caem, e a presença que há pouco era tão benéfica se satisfaz tanto com a bela imagem dos muros e proteções rompendo e caindo e se desfazendo que faz questão de ir embora logo depois disso, porque sabe que sempre estará presente nas ruínas daqueles muros antigos, sofridos e agora inexistentes.

E logo trata-se de reconstruir toda muralha, repor o que se deixou levar, esquecer de lembranças tão presentes, ter a felicidade enterrada porque apenas ela pode sustentar o muro, e demorar um bom tempo tentando encontrar base e chão suficientes para se firmar e se prevenir contra novas invasões.

E quando tudo está pronto, todos os tijolos enfileirados, todos os alicerces firmados, os dois pés fincados no chão, a cabeça no lugar... Aparece alguém com um sorriso bonito, com palavras impressionáveis e discursos ensaiados e os muros caem novamente...

Mas tudo é questão de querer! Depois de um forte abalo percebi que tudo é questão de escolha, a base somos nós, a escolha é nossa, defender seu território, se cuidar, decidir quem entra e quem sai... Tudo depende de nós, os muros são nossos, os alicerces são nossos, a cabeça pode estar nas nuvens mas os pés devem permanecer no chão.

Assim, talvez não haveriam motivos pra querer esquecer passados porque no mínimo se agiria certo, de um modo que nos envolvêssemos menos, nos entregássemos menos e sorríssemos mais quando tudo acabasse. ‘Enfeite seu jardim ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.’

-Taynná Chaves

- E eu sou idiota

Meus pés estão no caminho, as rotas mudaram e os atalhos não encurtaram percurso nenhum. Bom, eu ainda não havia descoberto nada, mas os movimentos irritavam meus olhos. Não havia nada, só curvas. E todas as vezes que eu pensei estar perto do fim ainda existiam mais coisas por vir.

Provavelmente estava andando em vão, querendo achar sentindo em um labirinto. Pouco me importa. Encontrei algo, encontrei você. Já é um bom começo.

Não, não há perfeição nenhuma no que acabo de encontrar. Você é só um mortal como todos os outros, a diferença é que você tem uma lanterna e prometeu me iluminar sempre. Não entendo, mas continuo pensando que minha procura acabou, parou em você, encontrei você, é ponto. É fim de linha, não há mais curvas, é ponto.

Anoiteceu. Achei um banco e talvez ele vá me servir. Você foi na esquina buscar uma tal de ‘explicação pra minha vida’ mas disse que volta logo. Engraçado é que você me deixou com uma lanterna e umas pilhas na mão... Mas você volta logo... É claro que volta...

-Taynná Chaves