Heitor era um cara estranho; sem muitos amigos e sem nenhum ritmo entrava na pista de dança e dançava; era um mesmo par, sempre. Todos desconfiavam dele, riam dele e do jeito desengonçado com que balançava o corpo tentando unir os dois corpos – o dele e o da menina – descartando uma tonelada de nervosismo que ele sentia quando dançava com ela, o par, o mesmo de sempre.
Eu nunca liguei muito pro Heitor, ele era muito complicado, ele parecia um nevoeiro quando se olhava de longe e de perto eu nunca me importei em ver, realmente não ligava pro Heitor. Um dia de sol eu conheci Heitor, de perto ele era ainda mais estranho tinha uma voz diferente e falava complicado, era engraçado vê-lo de perto, assim. Tão estranho e tão esquisito no meio daquela multidão de gente normal que era gracioso, agradava olhar pra ele, sabendo nada além de sua estranhes e seu nome: Heitor.
O par fixo de Heitor descobriu que ele não dançava tão bem assim, e tirou outro par pra dançar. Eu via tudo aquilo com normalidade, era comum dançar com outras pessoas, mas o Heitor não dançava, ele estava só, parado no meio da pista, sem se mover.
Lembro de um dia que tocou uma música legal e Heitor me chamou pra dançar, eu me assustei claro, ele era estranho e pelo que se via ele não sabia dançar. Mas eu fui.
Aprendi passos incríveis com ele, rir dele e de sua estranhes não fazia mais sentido, já que eu fazia parte daquela estranhes toda. Passei a conversar com Heitor e a me encantar com a dança dele e seu ritmo e seus passos, a cada música eu me perdia dentro dele.
As músicas iam crescendo e todos os dias a discoteca parecia mais bonita e mais cheia de cores. Heitor acabou me levando pra um mundo novo e o cara estranho passou a ser um sonho, uma ilusão tão doce e tão bela que mantinha meus olhos abertos constantemente pra que ele não se fosse quando eu piscasse. Heitor ressuscitou um milhão de sonhos mortos dentro de mim; me alimentou uns trucentos sorrisos bobos; me ensinou um monte de músicas bonitas, as que dão vontade de viver; despertou um mundo mágico de poesias lindas e intermináveis; e eu descobri que estava apaixonada pelo Heitor...
Heitor era um estranho, um doido, um alucinado, um fora-da-lei, um malucão... Heitor não era bonito. Heitor não sabia dançar. Heitor cantava mal. Heitor era um estranho. Um malucão. Mas eu amava Heitor. Amava de verdade e o via diferente de antes e me sentia tão lúcida quanto antes, e o via lindo. Intima e profundamente lindo.
Heitor sorria e seus olhos brilhavam e me descompassavam e me faziam sorrir e desconhecer o que não o incluísse.
E ele era lindo. O Heitor.
Então, num belo dia Heitor descobriu que eu não dançava tão bem assim, e tirou outro par pra dançar. Eu via tudo aquilo com normalidade, era comum dançar com outras pessoas, mas eu... Bom, eu não dançava, eu estava só, parado no meio da pista, sem me mover.
E todas as vezes que a música que eu dancei com Heitor me vem à mente o mundo em mil pedaços se converte...
Heitor? Ele continua lá: belo, do jeito dele; dançando fora de ritmo, belo como ele sempre foi; o Heitor de sempre: estranho, um louco, um malucão.
-Taynná Chaves
Ps.: O pensamento é triste; o amor, insuficiente; e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.
- Cecília Meireles
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