17 de julho de 2011

RE-cativar

O casulo pouco a pouco vai abrindo, ponta da asa aparecendo, tintilar mágico, risada de fada, fim do arco-íris.

Expecto Patronum! Mais um ciclo negro se fecha e as cortinas abertas deixam ver o horizonte pintado à mão: o sol se pondo, as ondas quebrando, tudo muito azul, brisa fria tocando o rosto, cabelos ao vento escorrendo pelos ombros.

Seus braços de repente envolvem minha cintura e ao pé do ouvido você diz que sentiu tanto a minha falta. As pernas bambas, o coração disparado, as galáxias se ofuscando com o brilho dos nosso olhos. Você tem me feito bem, me feito feliz, again. Que seja doce.

Taynná Chaves

16 de julho de 2011

ainda que você me sacuda e diga que me ama e que precisa de mim: ainda assim eu matarei as borboletas e cuspirei nas folhas amareladas dos plátanos e afastarei você com o gesto mais duro que conseguir e direi duramente que seu amor não me toca nem comove e que sua precisão de mim não passa de fome e que você me devoraria como eu devoraria você ah se ousássemos.

Caio Fernando Abreu

Restos. Retalhos. RE-tardos.

Meu coração vai batendo devagar como uma borboleta suja sobre este jardim de trapos esgarçados em cujas malhas se prendem e se perdem os restos coloridos da vida que se leva.
- Caio Fernando Abreu

E dói, ainda que eu não possa ficar mal, está machucando. E cada vez que o coração bate a dor entra com o espaço. Não quero moleza, distrações, quero o que perfura, o que rasga. Por inteiro. Você reclamava quando eu sentia só a superfície do que você me dava por completo? Então. Eu quero fazer tempestade agora.
Vai ficar tudo calmo, después, agora deixa a poeira baixar, deixa eu vais mais isso pra debaixo do tapete, deixa passar a vontade de te dizer que isso de querer e des-querer tá me desgastando, ok?
Quando o vento soprar essas dores pro Norte eu vou lembrar de você, nos dias frios quando a chuva molhar meu rosto de leve e o vento ecoar teu nome em meus ouvidos.
Quando o sol estiver a pino e eu não tiver companhia vou querer tua proteção, tua direção, tua mão na minha.
Quando a tarde for indo embora e o sol for abaixando enquanto todo o peso do mundo cai sobre meus ombros, eu vou querer ombro pra me encostar e teu sorriso pra massagear minha alma cansada de tantas queixas e quedas.
Entre acessos de raivas, sono, conversas vazias, pessoas vagas, relacionamentos incompletos, sonhos que não se realizam e no-fim-dá-tudo-certo que não chegam nunca, eu quase esqueço que você disse que íamos até o fim. Lembro a tua voz, a fraqueza bate feito brisa e sinto que preciso da sua mão me segurando uma vez mais.
Taynná Chaves

15 de julho de 2011

toc toc, escuridão.

Eu não quero muito, já disse, só quero seu ombro pra encostar a cabeça no fim desses dias de cão, só quero seu colo quente pra deitar e esquecer o quanto o mundo fica ruim sem vocẽ.
Lembra quando você me disse que ainda tinha muita flor pelo caminho? É verdade, tem flor, tem cravo e tem espinho.
Nessas tentativas frustradas de te encontrar em outro corpo qualquer eu acabo perdendo ainda mais. Me perdendo de mim, de ti. E você menino mistério a cada dia mais silencioso se afasta e entra de novo no seu mundo subterrâneo de portas e janelas lacradas pra qualquer tipo de luminosidade, ou amor como diziam os antigos. E eu iluminando escuridões de mentira, fantasiando emoções de papel.

Taynná Chaves

14 de julho de 2011

Pra mim é tudo ou nunca mais

Estamos vivos e é só.


Não vai adiantar, eu não tenho mais forças pra correr de um lado pro outro esperando que as respostas caiam do céu, eu não tenho mais criatividade pra criar sonhos e discursos brilhantes e não tenho mais o fôlego nem os pulmões de antes pra correr quilômetros a sua busca e ter todas as falas e palavras na ponta da língua e as emoções contidas ‘inexpressas’ numa canção que não para de tocar e você me olha como quem andou e andou e andou e não cansou e ainda quer dançar, meu amor isso eu não faço, eu não posso entrar nas coisas assim: sem me preparar, não posso nem te olhar se não me preparar antes. Por favor, não pegue no meu braço assim, não me olhe dessa maneira, como se tivesse autoridade nos meus passos, as cordas estão cortadas há tempos, você esqueceu que está tudo acabado entre nós? E essa música, olha nem dançar eu sei mais. Se eu ainda pudesse fingir que te amo, ah se eu pudesse, mas eu não quero e não devo fazer. Sim, eu gosto da Caymmi, a música é linda também. Não meu bem, ela não quer dizer nada, não tem volta pra nós, as passagens foram tão caras não é mesmo? E nós só tivemos dinheiro pra ida, não tem volta. Eu sei, é primavera e a gente bem que podia tentar dar uma chance pras flores, mas é pras flores, isso não te inclui, você não é flor, você é espinho, meu amor. Não adianta, você não vai mudar do dia pra noite, você não mudou porque pessoas não mudam. E estou muda e estou suja por estar te ouvindo mentir por tanto tempo ao pé do ouvido, essas mentiras não colam mais, esse teatro não vai mais impressionar, muda esse discurso ou as pessoas vão notar, não, eu não quero mil rosas douradas, o amor inventado que o Cazuza fala não é esse amor falso que você quer me dar. Você não vai me impedir de ir embora é melhor soltar meu braço, eu vou gritar, vou gritar pro mundo os horrores que você me fez passar, vou dizer em baixo e tom cruel no teu ouvido todas as noites em que eu te procurei na rua, na lua, nas cartas, nas fotos e nas músicas o teu rosto e eu não te encontrei porque você me deixou sem mais nem menos. Você não se importa? Então tá, então me deixa segurar nas tuas mãos e te abraçar com força pra você ver que eu posso te cuidar melhor que ninguém, deixa eu te olhar nos olhos e te fazer sorrir até doer a barriga, deixa eu te mostrar como o pôr do sol fica bonito da janela lá de casa, deixa eu te embalar no meu corpo e na minha pele e no meu calor pra você dormir e sonhar com as coisas bonitas que você sempre me diz acreditar, me deixa no fim dizer que eu te amo como nunca amei ninguém, me deixa dizer que eu vou cuidar de você até o fim? Não, você não ia aguentar, não é? E você ia derreter esse gelo, essa pedra, esse coração fechado pra verdade, pro amor? Você não quer isso, me deixe ir. Obrigada.

Taynná Chaves

Aconteceu sem um sino pra tocar

I remember, sempre que lembrava algo luminoso e simples: você chegava à mente. Não assim, como hoje: nessa proporção toda, mas tão luminoso&simples&belo quanto antes. E foi assim simples e se não nos conhecesse bem, pecaria em dizer que foi quase do nada. Não sei quando mudou ou quando aconteceu, não sei qual o primeiro balão de fala nem o último ponto, o final.

Mãos e braços e uma ampulheta descoordenada que era sua, controlando o tempo – ou descontrolando-o. De repente nossos olhos se abrem, um vidro se quebra, dedos estralam, borboletas esvoaçando pelo estômago and: clack! descobrimos. As mãos suando, as palavras faltando, as pernas sem forças, o corpo sem base. Tudo se turva e se enleia, e qualquer fio de náilon é espesso demais pra compreender a fragilidade daquele momento, instante único, segundo esplêndido: o-momento-onde-se-descobre-quê. E as borboletas então se aproximam, é a migração, anos-luz o coração se corroendo por lagartas de situações passadas que agora saem lindas e de todas as cores de seus casulos: borboletas preenchem o estômago e pintam de todas as cores os sorrisos e nos olhos todas as estrelas mais brilhantes e arco-íris nascendo de ponta a ponta no horizonte interior. E nem vento passa nem chuva cai, nem pássaro sobrevoa nem pessoas falam, tudo para. Espera espera espera. E depois de tanto contemplar aquele jardim completo na face, suspira e as ondas quebram e o sol se põe, e vem o primeiro luar e não é mais uma lua banhada por maresia duvidosa. Você vem e me chega e me invade com um sorriso e começa a segunda fase: durante. Nem antes nem depois: Du-ran-te. E que dure, que seja lindo. Que seja doce. Que os anjos digam, em alto e bom som, Amém!

Param, os pensamentos param, o coração para, everybody quiet , everything stop(e como naquela Pequena Epifania do Caio): ‘Clack! como se fosse verdade, um beijo’.

Então o primeiro sino começa a badalar. O coração a pulsar: firme, forte e cheio. Borboletas de todas as cores esvoaçando: dentro, fora.

Taynná Chaves

13 de julho de 2011



Você nem precisa dizer alguma coisa no telefone, basta ligar e eu fico ouvindo o seu silêncio. Juro como não não peço mais que o seu silêncio do outro lado da linha ou do outro lado da porta ou do outro lado do muro. Mas eu preciso muito, muito de você. estou quieta


Caio Fernando Abreu

Por favor, diferente

Eu não espero que você seja o-grande-amor-da-minha-vida, parei de acreditar nisso... Não quero que você me faça chorar. Não quero que você seja um motivo ruim na minha vida. Você é motivo de sorrisos, razão pra eu acordar num dia de chuva e tomar banho e mudar de roupa porque eu sei que você vai passar aqui... Não quero te odiar. Não quero falar mal de você pros outros. Pras minhas amigas. Quero falar mal de você como quem ama. Pois é, Carla, ele nunca lembra de desligar o celular antes de dormir e sempre alguém do trabalho liga. Sabe, eu quero dizer isso. Que o máximo de irritação que você me provoca é me acordar de manhã cedo falando bobagens que parecem ser importantes no celular. Não quero que você me largue. Não quero te largar. Não quero ter motivos pra ir embora, pra te deixar falando sozinho, pra bater o telefone na sua cara. E eu não tenho medo que isso aconteça (eu nunca tenho), eu fiz isso com todos os outros. É só que dessa vez eu queria muito que fosse diferente. Dessa vez, com você, eu queria que desse certo. Que eu não te largasse no altar. Que eu não te visse com outra. Que eu não tivesse raiva. Que você não passasse a comer de boca aberta. Que você entendesse o meu problema com chãos de banheiro molhados pra sempre. Que você gostasse e cuidasse de mim como disse ontem à noite que cuidará. Eu quero que dê certo, não estraga, por favor. Não estraga não estraga não estraga. Posso pôr um post-it na sua carteira? Mesmo que a gente não fique juntos pra sempre. Mesmo que acabe semana que vem. Nunca destrua o meu carinho por você. Nunca esfrie o calorzinho que aparece dentro de mim quando você liga, sorri ou aparece... Mesmo que você apareça na porta de outras mulheres depois de me deixar. Me deixe um dia, se quiser. Mas me deixe te amando. É só o que eu peço.

Tati Bernardi

A: Quando é que ele vai deixar de entrar e sair da minha vida?
B: Quando você decidir fechar a porta.

Taynná Chaves


Ele me aperta como sempre, até que algum ossinho da minha coluna estale.
Tati Bernardi

Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou.

Caio Fernando Abreu
Quero continuar a ter esse olhar capaz de se encantar com coisas que vê mesmo quando, particularmente, a minha história se torna difícil de ser lida. Por elas, largo as sacolas do supermercado no chão para, por alguns instantes, ser apenas aquela que as contempla. Os problemas continuam, mas o coração ganha um doce que muitas vezes nos ajuda a temperar os amargos.

Ana Jácomo

11 de julho de 2011


Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca, porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado. E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim, no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo. E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro. E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.
E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.
E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

(Vinícius de Moraes - Para uma menina com uma flor)

Acho que fiz tudo do jeito melhor, meio torto, talvez, mas tenho tentado da maneira mais bonita que sei.

Caio Fernando Abreu

Espelhado.

PESSOA 1 diz: Ele não deve conhecer esse teu lado meigo, sensivel, não mesmo. Não é possivel. Ele não se atreveria a te magoar se te conhecesse bem. Não creio. Ou então ele deve ser muito apaixonado pela outra… Mas mesmo assim, foi muita tolice o que ele fez. Eu fico triste de saber que vai ser dificil e vai doer pra você, ainda menos o vendo várias vezes.

Algum tempo depois PESSOA 1 se torna Ele.

Irônico não?

Sim, afligia muito querer e não ter. Ou não querer e ter. Ou não querer e não ter. Ou querer e ter. Ou qualquer outra enfim dessas combinações entre os quereres e os teres de cada um, afligia tanto.

-Caio Fernando Abreu

Barco furado

A:
E como você tá?

B:
Estou ocilando entre bem e médio, chegando a passar pela rua do péssimo, mas vou indo, e você?

A:
Sabe o cruzamento entre medo desespero saudade e certeza? Pronto, eu tô ai.

B:
Estamos as duas num barco furado :~

A:
Hoje acordei sentindo falta de qualquer coisa quente pra chamar de minha, até de 'x' eu senti falta, muita muita falta dele. Parece que nas noites que ele manda eu me cuidar são as manhãs seguintes em que eu mais penso nele. :~

B:
Por que você queria saber que ele iria cuidar de você, por que se cuidar só ta dando muito trabalho ultimamente.

A:
Eu só queria que ele se importasse comigo só um pouquinho, sabe? Só um por cento do quanto eu me importo com ele. Seja lá quem for 'ele' nesse contexto.

B:
Todos esses eles não vão cuidar de nós nunca se não nos cuidarmos primeiro o que está faltando é força para me cuidar.

A:
Só não para de remar, beleza?

B:
Beleza. Eu tenho remado com toda força que ainda há, e pedido muuuuuuuuuuito a Deus uma dose maior, mais ta dificil, por que agora nem sei mas o que eu realmente quero para mim

A:
É um tempo difícil para os sonhadores', acho que é essa fase do não-saber-oque-vem-depois que mais maltrata, sabe? Essa coisa de ficar acreditando no sempre: vai-dar-certo-no-final, esse final que não vem nunca.

B:
Acho muito cedo para falar em fim, acho que o meu ainda vai demorar muito, eu tenho sonho muito altos que colocam qualquer sonhos besta no chinelo mais o que eu queria era um agora bom sabe? Não é um final que eu quero agora, quero a continuidade de algo muito bom para ajudar a sacudir essa poeira toda aqui.

A:
Sabe qual é o medo maior? é que essas coisas não terminem nunca, que fiquem só em algum lugar esperando até aparecer de novo e de novo e de novo. Como o Caio falou uma vez: é preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso.

B:

Pois é. Acho que as pessoas agora estão até com medo de tocar fundo umas nas outras.

A:
Ssabe quando o barco para, o carro trava, o mundo estagna, o tempo não passa, as coisas não mudam, nem vão e nem ficam? tá desse jeito agora.

B:
Acho que o mundo anda de cabeça para baixo. Ou então a parte bonita dele está do outro lado.

A:
É como se eu estivesse presa em um vitrine, e tudo que eu quero ficasse do outro lado dela, todas as vezes em que está bem próxima de mim (do vidro, na verdade) e eu estivesse quase alcançando, alguém viesse e pegasse pra si.

Ad infinitum.

10 de julho de 2011

Pós-pré

Ao som de Quem Além de Você- Leoni


Por que nada é como se quer, mas é assim que tem que ser. Seu sorriso na memória incandesceu e confundiu todas as leis e métodos de segurança e fuga, e lembro - a última fuga - como lembro todas as outras. Reconstituo o calendário e me deparo com uma fuga constante, sina, rotina. Como se a cada sorriso eu fugisse, como se cada despedida e cada gesto e cada palavra dura e cada olhar fossem também fugas disfarçadas. E, depois, de já estar cansada de tantas fugas: fugi.

Joguei sobre você tantos medos, tanta coisa travada, tanto medo de rejeição, tanta dor’. E sei, sabíamos, que nada era culpa sua. ‘Difícil explicar. Muitas coisas duras por dentro. Farpas. Uma pressa, uma urgência’. E não era culpa minha, do destino talvez, das dores de antes, de depois. Agora, sei, não há culpa, nunca houve. Eram esquemas, planejamentos, rotas, escapes, medos ‘e uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer’. Tudo era simples e claro e belo, então me anoitecia. E o medo era todo pré, e as dores eram todas pré. Pré tudo. E antes que qualquer coisa bonita ameaçasse crescer por dentro ou por fora, eu negava e me escondia porque era o certo, ‘para que não me firam, minto. E tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também’. Não sei se te feri, era tudo pré, lembra? ‘Não sei se a gente pode continuar amigo’. Talvez tudo tenha se apressado tanto que nem amigos chegamos a ser. ‘Não sei se em algum momento cheguei a ver você completamente como Outra Pessoa, ou, o tempo todo, como Uma Possibilidade de Resolver Minha Carência’. Sei, apenas, que tudo correu de jeito tão incontrolável e inacabado que o fim evidente se atou com o começo inconsequente e agora, mais uma vez, é tudo pré. E depois do pré vem o pós e depois do pós não tem pra onde correr, é pré de novo: Pre-ci-são. Minha, sua, nossa.


Taynná Chaves

Pra mim é tudo ou nunca mais

Estamos vivos e é só.

Não vai adiantar, eu não tenho mais forças pra correr de um lado pro outro esperando que as respostas caiam do céu, eu não tenho mais criatividade pra criar sonhos e discursos brilhantes e não tenho mais o fôlego nem os pulmões de antes pra correr quilômetros a sua busca e ter todas as falas e palavras na ponta da língua e as emoções contidas ‘inexpressas’ numa canção que não para de tocar e você me olha como quem andou e andou e andou e não cansou e ainda quer dançar, meu amor isso eu não faço, eu não posso entrar nas coisas assim: sem me preparar, não posso nem te olhar se não me preparar antes. Por favor, não pegue no meu braço assim, não me olhe dessa maneira, como se tivesse autoridade nos meus passos, as cordas estão cortadas há tempos, você esqueceu que está tudo acabado entre nós? E essa música, olha nem dançar eu sei mais. Se eu ainda pudesse fingir que te amo, ah se eu pudesse, mas eu não quero e não devo fazer. Sim, eu gosto da Caymmi, a música é linda também. Não meu bem, ela não quer dizer nada, não tem volta pra nós, as passagens foram tão caras não é mesmo? E nós só tivemos dinheiro pra ida, não tem volta. Eu sei, é primavera e a gente bem que podia tentar dar uma chance pras flores, mas é pras flores, isso não te inclui, você não é flor, você é espinho, meu amor. Não adianta, você não vai mudar do dia pra noite, você não mudou porque pessoas não mudam. E estou muda e estou suja por estar te ouvindo mentir por tanto tempo ao pé do ouvido, essas mentiras não colam mais, esse teatro não vai mais impressionar, muda esse discurso ou as pessoas vão notar, não, eu não quero mil rosas douradas, o amor inventado que o Cazuza fala não é esse amor falso que você quer me dar. Você não vai me impedir de ir embora é melhor soltar meu braço, eu vou gritar, vou gritar pro mundo os horrores que você me fez passar, vou dizer em baixo e tom cruel no teu ouvido todas as noites em que eu te procurei na rua, na lua, nas cartas, nas fotos e nas músicas o teu rosto e eu não te encontrei porque você me deixou sem mais nem menos. Você não se importa? Então tá, então me deixa segurar nas tuas mãos e te abraçar com força pra você ver que eu posso te cuidar melhor que ninguém, deixa eu te olhar nos olhos e te fazer sorrir até doer a barriga, deixa eu te mostrar como o pôr do sol fica bonito da janela lá de casa, deixa eu te embalar no meu corpo e na minha pele e no meu calor pra você dormir e sonhar com as coisas bonitas que você sempre me diz acreditar, me deixa no fim dizer que eu te amo como nunca amei ninguém, me deixa dizer que eu vou cuidar de você até o fim? Não, você não ia aguentar, não é? E você ia derreter esse gelo, essa pedra, esse coração fechado pra verdade, pro amor? Você não quer isso, me deixe ir. Obrigada.

Taynná Chaves

'A luz aflora onde nenhum sol brilha'

Se pudesse te tomava agora pelas mãos e te guiava entre as estrelas, buscando por lá, pelas galáxias mais distantes, um brilho comparável ao teu. Os ventos, os mares, as árvores, os pássaros, as borboletas - todas elas, as de dentro, as de fora - conspirando a favor. ‘Olhe bem no fundo dos meus olhos e sinta a emoção que nascerá quando você me olhar’ aperte os olhos e veja um milhão e meio de estrelas espalhadas pelas lentes que deixam o rastro brilhoso em tudo que você toca, é o mundo dizendo que sim, sins por todos os lados, ‘o universo conspira a nosso favor a conseqüência do destino é o amor, pra sempre vou te amar’.

Seguimos mudos acendendo as estrelas, acordando os planetas, jogando vida pelo infinito silencioso. Esquecendo o que ficou pra trás. ‘Que tudo como em todo permaneça, no centro de tua alma que a calma acalmo e que a calma traga o sono no sonho infinito de ser feliz’. Abre teu sorriso mais luminoso, tira da cartola tua mais bonita poesia, guia as estrelas baby, e quando a luz faltar serão as minhas mãos que irão te segurar e apontar o caminho de volta, e se o medo do precipício invadir, sou eu quem tô aqui, não vê? Eu vou até o fim.

Venha comigo e me conceda essa dança, que a lua encantada está chegando ao fim, deixe que ela te enfeitice, daqui a pouco surgem os primeiros raios de sol, ‘dá-me tua mão, e vem comigo entre as estrelas’, vem sem medo. Estrelas cadentes. Todas as constelações e sistemas e satélites e cometas e planetas e constelações e sistemas e satélites e cometas e planetas e constelações & everything again, até que perca o sentido, a forma, a cor e fique só o canto: o en-can-to. Encanta, dança, lança. E assim simples, e assim fortes e assim belos permanecemos: mãos dadas. Sem querer rotular nada, sem precisar rotular nada. Apenas sendo. Apenas tendo. Eu a você, você a mim. ‘E que fique muito mal explicado. Não faço questão de ser entendido’.

Taynná Chaves