27 de junho de 2010

Vazio

Cadê a dor? Cadê a amizade? Cadê a saudade? Cadê a canção? Cadê a poesia? Cadê você?

As coisas se perderam no curto espaço de nós dois.

Cadê a inspiração? Cadê a alegria? Cadê o tempo? Cadê o vento, a chuva, o arco-íris? Cadê as cartas de amor não correspondido? Cadê a falta enorme de você?

As coisas se perderam no imenso espaço de nós dois.

Está tudo oco, sem nada. Não estou mal, mas não estou bem. Está tudo igual, plástico, nulo.

Uma mesmice colossal!

Tenho total conhecimento de tudo. Eu sei que você está tão distante, tão longe, tão fora de mim que isso deveria doer até que todas as lágrimas saltassem, eu sei que a saudade já deveria estar aqui: dentro e fora de mim. Mas ainda não sinto nada.

Estou pronta. Preparada pra qualquer sentimento e emoção. Estou conformando as coisas por dentro, embora – confesso - ainda tenha uma breve fé – mínima, íntima - de que vamos ficar bem: juntos.

Sei que preciso de você, é essa convicção que me dá forças para acordar em mais um dia nublado e recomeçar a vida, construir tudo de novo.

Taynná Chaves

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Então, onde estarias?
Junto a que gente?
Dizendo que palavras?
Por que me há de vir todo este amor de um golpe
quando me sinto triste e te sinto distante?

Pablo Neruda

Catarina III

Catarina, enlouquecida, piscava os olhos vagarosamente, talvez pra disfarçar o peso que sentia. Estava só mais uma vez, não sabia o que fazer e tinha uma saudade e uma culpa enorme nas costas. Não queria saber de mais nada, mais ninguém. Sabia o que não queria. Sabia o que queria.

Forçava a mente, fechava os olhos, se mexia feito louca, implorava pra mente se esforça! Se esforça! Mas não adiantava. Parava e meditava: se auto-julgava, se auto-batia, se auto-reclamava. Não conseguia nada.

Era extremamente odioso pra ela esquecer. Se deixar esquecer.

Não lembrava. Não lembrava o rosto dele. Não lembrava.

Foi pra rua, gritou com o cachorro, o porteiro, o sindico do prédio, o motorista que buzinou no pé do seu ouvido, as crianças do campinho... Gritou consigo mesma. Olhou pro céu, fragmentos de uma gota que pingou se espalharam por seu rosto e um sorriso foi espontaneamente aberto. Pegou o guarda chuva que estava na bolsa. A chuva se estendeu e o sorriso ficou muito mais largo, seu coração quase explodindo.

Olhou o relógio, faltavam cinco minutos, olhou pro céu de novo e viu. Encontrou o que queria. Viu o rosto dele. Jogou o guarda chuva. Pôs as mãos no bolso. Olhou pro céu e o viu. Sorrindo, lindo, um doce.

Catarina sorriu, linda, um anjo. E uma saudade cinza se espalhou por todo seu corpo. Uma dor indefinível atingiu aquele sorriso.

Ela suspirou, contrariou tudo que era previsível. Olhou pro céu e sorriu. Estava feliz.

Havia lembrado o rosto dele. O amava. Era o suficiente.

Taynná Chaves

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E fui eu, te guardei

Onde ninguém vai tirar

No fundo dos meus olhos

Lá dentro da memória te levei

Amor, você me tentou...

Apelação

Não sei que música me fará esquecer de você. Não sei o que fazer pra dormir. Não sei o que assistir pra não chorar. Não sei pra quem ligo agora. Não sei o que quero.

Você poderia, por favor, vir até aqui?

Não sei o que os vizinhos têm, eles colocaram um CD da sua banda preferida e as músicas berram seu nome pra mim. Não sei o que meu sono está tentando fazer, meus sonhos empurram sua imagem aos meus olhos. Não sei por que essas lágrimas agora. Não sei por que esse telefone não toca. Acho que quero você.

Se eu fosse até ai você me abriria a porta, um sorriso e seus braços?

Não sei como explicar, não sei por que só digo não. Não sei, mas acho que estou arrependida. Não sei em que proporção, mas acho que te quero assim, aqui, agora, comigo. Não sei o que escrever, mas sei que eu preciso de você por que minha inspiração se esgotou.

Não sei trocar a água das flores e elas já estão murchando. Minhas flores estão morrendo. Você poderia vir até aqui?

Taynná Chaves

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E o meu lugar é esse ao lado seu

No corpo inteiro

Do meu lugar hoje o seu lugar

É o meu amor primeiro

O dia e a noite

As quatro estações

.

Nenhum vento te trouxe agora

Me mostre quantos caminhos de fato existem porque não vejo nada. Faltou luz. Estou ficando sem ar. Não existem mais pessoas solidárias. Ninguém ajuda mais ninguém. Estou perdida. Não sei até onde essa estrada continua. Nem sei pra onde estou indo. Estou sem rumo. Está escurecendo. Eu tô sozinha. E você não está aqui.

Sabe aquela culpa? Aquele peso na consciência? Aquela vontade idiota de ah, se eu pudesse voltar no tempo e fazer tudo diferente? Sabe? Essas coisas, elas pesam, não é? Pesam. E essa falta aqui dentro? Esse oco? Esse buraco? Esse vazio? Você poderia pelo menos aplaudir meu bom desempenho? Eu ainda tô respirando com tudo isso nas costas. Dá pra acreditar? Tô viva, cara.

Isso é normal, dá e passa. Eu vou tomar um café bem forte, ler um daqueles livros de auto-ajuda que tomei emprestado, assistir qualquer besteira na TV... E quando a chuva começar a cair, por puro instinto eu vou sair e olhar pro céu e ver a lua. E é impossível não lembrar você. E quando a lágrima cair eu vou ficar olhando o céu negro com os cristais caindo. E a essa altura o frio vai incomodar e eu vou entrar e deitar na cama. E tentar esquecer isso. Pensar em qualquer besteira até dormir. E no outro dia vai ser a mesma coisa. Afinal de contas, a essa altura é tudo sempre igual mesmo.

Taynná Chaves

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... me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez, que leve para longe da minha boca este gosto podre de fracasso, este travo de derrota sem nobreza, não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum, ninguém dá mais carona e a noite já vem chegando. Caio Fernando

Catarina II

Catarina agora estava sozinha. Cabelos esvoaçando, pulmões gritando, corria. Corria ao encontro dele, mesmo no escuro. Corria sem pensar e, talvez por isso, sem medo. Corria ao encontro dele no fim corredor: escuro alagado estreito longo. Sem medo. Dissuadia sua mente das canções e dos pensamentos que vinham à frente. A chuva estava cada vez mais forte e o corredor mais escuro, não tinha lua, nem estrelas, só nuvens: negras.

Quanto mais corria mais longo ficava o caminho, seu reflexo na água começava a desaparecer e o sono começava a afetar sua mente e sua lucidez, e seus olhos se fechando cada vez mais tentavam encontrar uma brecha de luz, uma seta que indicasse outro caminho. Mas era um corredor. Era um labirinto. Um beco. Uma ruela. Só que infinita. Sem volta. Sem curva. Sem saída. Era só o caminho à frente. E nunca mudava.

Por um segundo pensou ver os olhos dele, os braços abertos o coração se abrindo. E sentiu alimentar um sorriso em seus lábios, uma luz que iluminou todo o corredor, abrindo uma passagem, uma saída. O abraçou, o apertou, o segurou com-todas-as-suas-forças, prometeu que não mais o soltaria. Uma dor muito forte a invadiu e ele se foi no escuro.

Catarina tinha caído, estava sonhando, foram dois segundos apenas. Ele não se foi, apenas nunca viera. Apenas.

Mas ela não sabia. Minto. Sabia, mas se enganava. Doía menos se enganar. E ela continuava correndo, sentindo o sorriso se alimentando daqueles olhos e daqueles braços e daquele sorriso, e de um reflexo, um sonho, um delírio: seus lábios, os dela e os dele, unindo-se, sentindo-se, amaciando-se; suas mãos juntas: tateando, apertando, sentindo um ao outro; e seus corpos: quentes, fervendo, desejosos juravam e falavam e consentiam e suspiravam e se apertavam como não-me-abandone-jamais.

Mas quando cansou, soube que iria amanhecer. E que pararia de correr em busca dele por um corredor escuro e infinito debaixo de chuva. Ela sabia. Por que estava amanhecendo e o sol estava nascendo: quente sorrindo lindo. Lindo. Lindo. E parou por meio segundo, pensou como quem jurava: agora que está claro, vou poder chegar mais rápido. Já tô perto, meu bem. Espere por mim...

E agora corria por um corredor claro e infinito debaixo do sol e da neblina da manhã.

E Catarina continuou correndo. Correndo. Correndo.

Ao encontro dele.

Taynná Chaves

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Mas sabes principalmente, com uma certa misericórdia doce por ti, por todos, que tudo passará um dia, quem sabe tão de repente quanto veio, ou lentamente, não importa. - Caio Fernando

Me agrado assim

Não sei o que vejo, nem mesmo eu. Provavelmente fica mais difícil pensar e ser racional vendo o que vejo e o que não vejo. Não sei o que acho de você, só sei que me agrado assim. Não sei o que você faz de errado que eu posso consertar.

Não sei. Não quero mudar. Me agrado assim.

Eu não sei o que sinto, nem mesmo eu. Seria difícil falar com seus olhos me constrangendo. Não sei o que aconteceria se pudesse voltar no tempo.

Não mudaria coisa alguma. Queria apenas ter te visto antes, tão debaixo dos meus olhos.

Tão perto, tão claro, tão ali: acessível.

O que aconteceu não sei. Culpa de quem, não sei. Onde você está, não sei. O que você sente, não sei. O que você pensa, não sei.

Não quero mudar. Não sei nada. Me agrado assim.

Taynná Chaves

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Seus olhos certos

Mas não sei o que dizer

Eu não vou mas o tempo vem

.

Definição

Se eu te disser que sim, já tentei tudo. E eu desisti. E eu me conformei. Por que tem sempre uma coisa que conforta. Aprende.

Meus versos, tão vermelhos e vivos. Minhas canções cheias de flores e plumas. Meus olhos cheios de cores e brilho. Minhas recordações tão acesas. Os motivos tão claros. E as nuvens e o sol e a lua... Tá tudo tão bonito por aqui.

Como você consegue, me diz?

Talvez se as coisas são mesmo assim, se agente vai somente até onde deveria ir; se agente faz somente o que deveria fazer; se agente diz somente o que tinha pra dizer; se agente vive somente até certo ponto; se agente quer somente até onde se deve querer. Se é assim então tudo bem. Então por que comigo não é assim? Como você consegue, me diz?

Me diga então por que eu sempre quero ir além. Por que eu sempre faço o que não devo. Por que eu sempre sinto que deveria ter dito mais, ter dito menos, mas nunca sinto que disse o suficiente. Por que eu ainda quero viver uma coisa que já morreu. Por que é que eu ainda quero isso tudo.

Me diga, por que eu já não tenho palavras, por que mesmo sem te ver eu te sinto em tudo, em todo verso, em toda nota, em toda prosa, em todas as cores, em todos os ritmos, em tudo que é belo. Tá acontecendo o que o Caio disse, sabe aquele trecho: não conseguirás sorrir nem caminhar alheio pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele, em algum cheiro estranho o cheiro preciso dele. Sabe? Pronto. É exatamente o que acontece agora. Você está em tudo.

A única conclusão a que cheguei foi que é amor, e quando é amor é assim, agente nunca acha suficiente, sempre acha que é desigual, agente sempre acha o que não procura e culpa tudo no mundo. Mas é sempre normal, é amor, cara.

TaynChaves

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Quando eu me iludo é quando eu te esqueço

Quando eu te tenho eu me sinto tão bem

...você me faz tão bem

.

Catarina

Roia as unhas. Rabiscava os guardanapos em cima da mesa. Arrumava os cabelos. Sorria pra mim e me convidava pra sentar. Tinha voz doce, rosto angelical. Uma flor. Um doce.

Catarina não sabia disfarçar, não sabia mentir, nem fingir; só sabia sentir.

Catarina me amava, outro dia descobri que eu sei: ela me amava.

E Catarina, quando me via. Ah... Suas mãos tremiam, suas mãos suavam, elas sorriam, me seguravam.

Eu a segurava forte, seu sorriso me abraçava, seus olhos cegavam de tanto brilhar, seu coração batia tão forte que o sentia trepidar por todo meu corpo, decodificava sua pulsação acelerada, suas palavras entrecortadas pelo nervosismo. E sua fragilidade tão óbvia expressa nas suas declarações, nas suas saudades, nas suas promessas não cumpridas, na dificuldade que ela tinha em ter que se afastar dez centímetros de mim.

Catarina me amava.

Catarina tinha medo, mas eu não sabia. E o que sentia era grande demais pra caber lá dentro, acho que por isso ela gostava que eu a segurasse, era peso demais pra ela. Mas eu não sabia. Catarina não me dizia. Catarina só sentia. Eu queria saber dela, mas ela não dizia. Fugia, sem conseguir. Depois voltava. E corria. Corria pra mim.

Mas nunca dizia.

Catarina nunca dizia o que sentia. Só sentia. Sentia só-sozinha.

- John...

Taynná Chaves

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Afinal de contas, o que nos trouxe até aqui

Medo ou coragem?

Talvez nenhum dos dois.

10 de junho de 2010

Heitor

Faz muito tempo, mas eu lembro bem daqueles tempos, daquelas pessoas, principalmente dele. Heitor. Eu nunca tive tempo nem paciência nem coragem para tentar distinguir o que éramos, quando éramos dois, juntos, eu e Heitor; mas me peguei pensando nele um dia desses, e ele não mudou nada, nadinha.

Heitor era um cara estranho; sem muitos amigos e sem nenhum ritmo entrava na pista de dança e dançava; era um mesmo par, sempre. Todos desconfiavam dele, riam dele e do jeito desengonçado com que balançava o corpo tentando unir os dois corpos – o dele e o da menina – descartando uma tonelada de nervosismo que ele sentia quando dançava com ela, o par, o mesmo de sempre.

Eu nunca liguei muito pro Heitor, ele era muito complicado, ele parecia um nevoeiro quando se olhava de longe e de perto eu nunca me importei em ver, realmente não ligava pro Heitor. Um dia de sol eu conheci Heitor, de perto ele era ainda mais estranho tinha uma voz diferente e falava complicado, era engraçado vê-lo de perto, assim. Tão estranho e tão esquisito no meio daquela multidão de gente normal que era gracioso, agradava olhar pra ele, sabendo nada além de sua estranhes e seu nome: Heitor.

O par fixo de Heitor descobriu que ele não dançava tão bem assim, e tirou outro par pra dançar. Eu via tudo aquilo com normalidade, era comum dançar com outras pessoas, mas o Heitor não dançava, ele estava só, parado no meio da pista, sem se mover.

Lembro de um dia que tocou uma música legal e Heitor me chamou pra dançar, eu me assustei claro, ele era estranho e pelo que se via ele não sabia dançar. Mas eu fui.

Aprendi passos incríveis com ele, rir dele e de sua estranhes não fazia mais sentido, já que eu fazia parte daquela estranhes toda. Passei a conversar com Heitor e a me encantar com a dança dele e seu ritmo e seus passos, a cada música eu me perdia dentro dele.

As músicas iam crescendo e todos os dias a discoteca parecia mais bonita e mais cheia de cores. Heitor acabou me levando pra um mundo novo e o cara estranho passou a ser um sonho, uma ilusão tão doce e tão bela que mantinha meus olhos abertos constantemente pra que ele não se fosse quando eu piscasse. Heitor ressuscitou um milhão de sonhos mortos dentro de mim; me alimentou uns trucentos sorrisos bobos; me ensinou um monte de músicas bonitas, as que dão vontade de viver; despertou um mundo mágico de poesias lindas e intermináveis; e eu descobri que estava apaixonada pelo Heitor...

Heitor era um estranho, um doido, um alucinado, um fora-da-lei, um malucão... Heitor não era bonito. Heitor não sabia dançar. Heitor cantava mal. Heitor era um estranho. Um malucão. Mas eu amava Heitor. Amava de verdade e o via diferente de antes e me sentia tão lúcida quanto antes, e o via lindo. Intima e profundamente lindo.

Heitor sorria e seus olhos brilhavam e me descompassavam e me faziam sorrir e desconhecer o que não o incluísse.

E ele era lindo. O Heitor.

Então, num belo dia Heitor descobriu que eu não dançava tão bem assim, e tirou outro par pra dançar. Eu via tudo aquilo com normalidade, era comum dançar com outras pessoas, mas eu... Bom, eu não dançava, eu estava só, parado no meio da pista, sem me mover.

E todas as vezes que a música que eu dancei com Heitor me vem à mente o mundo em mil pedaços se converte...

Heitor? Ele continua lá: belo, do jeito dele; dançando fora de ritmo, belo como ele sempre foi; o Heitor de sempre: estranho, um louco, um malucão.

-Taynná Chaves

Ps.: O pensamento é triste; o amor, insuficiente; e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.

- Cecília Meireles

6 de junho de 2010

' A vida é agora, aprende.'

Não passa assim, você sabe. Não morre assim, você sabe. E não se fica bem assim, você sabe. E eu, que estou tão bem ultimamente: eu não sei, dizem que ás vezes a ficha demora pra cair, talvez essa não seja a frase certa... Outro dia me disseram:

- Ah! Agente é um caso à parte, Taynná!

Bom, a frase não fez o menor sentido pra mim, provavelmente quem a proferiu tivera mais artifícios para me distrair a ponto de não me deixar entender a contextualização. Eu não vi sentido.

Mas agora, encarando as circunstâncias de frente - sabendo que metade da frase deixa de ser verdade passando a ser só um passado - eu entendo o que quer dizer ‘à parte’, agoraexatamente - eu sei que é diferente, com você é diferente. Não consigo me sentir triste – muito menos, mal - com isso, eu sinto é falta, é só isso. Ficou o silêncio de depois. Tudo é saudade.

E quanto a você não sinto aquela vontade louca de eu-quero-gritar-pros-quatro-cantos-do-mundo-que-te-amo, e isso não me faz pensar que é menos amor! Me faz certa do quanto eu cresci e aprendi a conciliar intensidade e sensatez.

E eu prefiro amar assim, no silêncio da minha alma; prefiro ficar sentindo e apalpando todas essas sensações idiotas de quando se ama alguém; eu prefiro ficar pensando em você a noite inteira e no outro dia não conseguir dar dois passos por medo de encontrar você e travar; eu prefiro ficar sentada aqui, olhando você de longe e pedindo que um buraco se abra pra que eu possa me abrigar quando seu olhar me perceber procurando por você; e eu prefiro ficar aqui e não sair, amar infantilmente como quem suspira e deixa que os olhos brilhem; e eu prefiro ficar com as minhas lembranças e os meus contos e meus encantos sobre você a aceitar as circunstâncias palpáveis que amanhã ou depois vão me enfrentar...

Eu prefiro ficar aqui lembrando até adormecer e sonhar e acordar cantando uma daquelas músicas melosas e pensando em como você vai estar no dia que está começando.

# Me diz primeiro
Por que te mostro metade do meu amor inteiro?

- Taynná Chaves

João II

- São duas da manhã, e eu não consigo dormir.

- O que houve?

- Sei lá... Uma dor tá me incomodando muito... Acho que eu tô amando, João...

- E tem cura?

- Tem. Duas doses de presença.

- Você não vai melhorar, vai?

- Não.

-

- Como é sentir esse troço... O amor?

- É que não tem explicação. Como disse a Adriana: amor é um exagero... João, agente foge e corre e discorda e ri e não quer... Mas de repente: olha lá ele entrando no seu coração e mudando sua vida e te fazendo sonhar acordado e sorrir do nada. O amor chega e é só. Ele não pede permissão, João, ele entra e pronto.

- E como é que é amar? Tem cheiro, tem cor, tem som?

- Ah, João... Amar tem cheiro de flor, tem cheiro de chuva, tem cheiro de mar. Amar tem cor de céu, tem cor de luar. Amar tem som de chuva quando cai, tem som de vento que dá e passa, tem som de samba cantado no ouvido, tem som de beijo, tem som de silêncio, de risada alta.

- Ah...

-

- E o amor... Ele tem gosto? O amor, ele tem gosto de lágrima?

- Não, João.

- E por que quando as pessoas amam elas choram?

- É por que ás vezes as pessoas sofrem, João. É por isso.

- É por culpa do amor não é, ele dói não é?

- Não, João. O amor não dói. O que dói são as pessoas.

- Eu não quero amar não. Eu não quero esse troço não.

- O amor é bom, João. Ele é bom...

- E por que você não está sorrindo?

- É que ás vezes você dá amor e não recebe. É que o amor é uma troca, João.

- Ah, mas eu não quero isso não.

-

- Sabe, João. Um dia, você vai ser o cara mais feliz do mundo, e ai, você vai descobrir o nome disso...

- O quê?

- Advinha João!

- O amor!

- Taynná Chaves

'E só um resto de vida fica'

Certamente a vida muda a cada passo e cada nova canção, e não importa se agente só sabe cantar o refrão, não importa se agente tocou as notas erradas, a canção vai mudar, outra canção começa. E o dia segue sim, independente de mim, e você segue sim, independente de mim, já dizia Pessoa: A tua beleza para mim está em existires./A tua grandeza está em existires inteiramente fora de mim.

E provavelmente eu deva seguir sim, totalmente dependente de um raizinho de sol que sai de você pra que meu dia comece. E se chove é meu escape, e eu deixo que escapem todas as dúvidas:

Talvez eu não queira mais respostas, estou farta de saber demais!

Talvez eu não queira mais esclarecimentos, eles estão fatigando meus pensamentos!

Talvez eu não queira mais ler esses contos, eles estão se tornando melosos e previsíveis!

Talvez eu não queira mais pensar em plural, eles são sempre traiçoeiros...

Talvez eu não queira mais saber de nada, como diria o Caio: agente sabe, que agente sabe demais, sobre nós dois.

E se tudo que eu canto e penso e guardo e escrevo se liga a você...

- E é tudo tão bonito que me dói e me pesa!

Então eu já não sei o que se diz agora.

E eu prefiro não dizer mais nada. E eu prefiro deixar que as ondas batam em vão porque muitas baterão e eu continuarei fixa ao chão. Olhando o vento passar. Pensando que podia se quisesse... Nada, deixa pra lá!

# Não te dizer o que eu penso já é pensar em dizer!

- Taynná Chaves

'Somos pássaro novo longe do ninho'

Eu não quis aprender nenhuma lição, eu não estava pronta pra encarar nada, eu não tinha peito pra agir certo em nenhuma das situações, nem queria deixar meus sonhos, nem queria abandonar meus amigos imaginários, nem minhas concepções infantis, nem minhas atitudes de criança; eu não queria deixar minhas coisas pra trás, nem minhas bonecas sozinhas, eu não queria ter que ver que o mundo não é o que eu pensei, não queria ver as verdades assim na minha cara, eu não queria crescer...

As coisas mudaram e eu estou aprendendo. Estou criando imunidade, adquirindo forças dos lugares mais escondidos e singelos que já pôde haver dentro de mim. Estou respirando em meio a isso tudo, a essa poluição, estou mantendo o ar, estou sobrevivendo. Esperando a poeira e o vento chegarem, estou esperando que as ondas batam e levem isso. Convicções não poderão mais me punir ou me castigar com as dúvidas de outrem.

Eu sei que o que eu sei já me é suficiente! Sem incertezas nem ilusão nem sonhos nem pensamentos nem imaginação que me levem a achar um ponto ou um sinal de negatividade nisso. Nem ódio nem mágoa nem marcas. Nem arrependimento nem rastros. As canções não vão dissuadir minhas certezas nem minha imunidade.

As frases que eu encontrei em uma daquelas agendas antigas - em um daqueles diários secretos – se encaixariam perfeitamente aqui, a mim e a você. Mas faz parte do processo ter que privar-se de tudo que queira se aproximar das barreiras com o intuito de removê-las ou de tocá-las ou de burlar as regras.

As asas quebradas criam impulso depois de alguns dias, me disseram. Verdade. Daqui a pouco elas vão se mover, elas precisam de um tempo – assim com eu preciso. Mas elas vão cansar de ficar paradas e vão levantar voo de novo. Você vai ver, é só esperar. O tempo vai cuidando do resto!

Minhas roupas já estão secando ali fora e meus pés estão calçando-se, está tudo se encaixando e as coisas estão se tranquilizando, voltando à rotina e à normalidade. E isso faz parte do processo, errar e cair e se machucar. Qual é? Isso é normal! Qualquer pessoa sabe que viver exigi riscos e eu sei aceitar isso. Mas as coisas mudam, as dores passam e as feridas fecham, e então vêm outras e outras. E as pessoas que hoje são muito amanhã já não serão nada. E as pessoas que hoje se foram amanhã serão noticiadas de que houve e sempre há de haver outras pessoas. Um dia após o outro e assim por diante.

E as lições que aprendemos é o que fica, e ficam juntos os sorrisos e os abraços e os cheiros e as cores e as vozes e os gestos e as bobagens e a história...

Tudo um dia vira luz!

-Taynná Chaves